Hoje é dois de janeiro de 2012 e agora posso dizer que oficialmente estou no 5º Ano do Curso de Medicina na Universidade Federal do Maranhão, ou seja, estou no Internato Médico e por isso o título "Homo internus" deste blog. Brevemente explicarei algumas coisas sobre este espaço virtual:
Não tenho pretensões além da Medicina com o Homo internus;
Pretendo publicar postagens curtas e não tão elaboradas, sem frequência definida;
Escreverei casos cirúrgicos ou situações interessantes que vivenciarei nesses próximos dois anos, assim como sobre minha preparação para as provas de Residência Médica, congressos, estágios, etc.;
Preservarei a identidade dos profissionais e pacientes envolvidos nos casos, a menos que esses autorizem a divulgação de seus nomes, imagens ou outras características que os leitores possam identificá-los;
Tentarei ser impessoal e postar aqui somente situações com a visão crítica e profissional que um médico deve ter, evitando que emoções ou sentimentos interfiram nos textos.
E pra começar, abaixo breve caso sobre uma cirurgia que acompanhei hoje, mesmo eu estando de férias. Não especificarei detalhadamente a anamnese (todos os dados do paciente e sua doença) ou evolução da internação, meu objetivo é frisar algumas coisas que percebi que são importantes.
Era um paciente de 20 anos que há alguns meses foi vítima de acidente automobilístico e após a cirurgia de emergência, apresenta atualmente um pós-operatório doloroso com quadro de desnutrição, fístula entérica (comunicação anormal que pode ser entre vísceras, cavidade abdominal ou superfície cutânea, através da qual ocorre a drenagem de líquidos digestivos) e tomografia computadorizada com laudo de pneumoperitônio (ar na cavidade abdominal) moderado. Os estudantes de Medicina ou outros profissionais da Saúde podem achar-me boba falando isso, mas esse caso é um exemplo de que o cirurgião de verdade é o que faz um bom pré e pós-operatório (cirurgias eletivas) ou bom pós-operatório (cirurgias de emergência), não um mero operador que realiza procedimentos sem preocupar-se com o bem-estar daquele que está sobre a maca ou então realiza procedimentos que demandarão menos tempo cirúrgico, mas em compensação causarão um deficit na qualidade de vida desse indivíduo, muitas vezes realizando verdadeiras castrações, não que esse seja o caso desse rapaz.
Outra observação ainda sobre a atenção que um cirurgião deve ter mesmo fora do campo operatório é em relação ao relatório de operação, documento anexado ao prontuário e que consta as informações da cirurgia. Na cirurgia de hoje, por exemplo, ele constou de:
Diagnóstico pré-operação: fístula pancreática-colônica (ou seja, no pâncreas e no intestino grosso)
Tipo de operação: laparotomia (cirurgia aberta!) exploradora (colectomia + enteroanastomose + pancreatectomia distal)
A descrição da operação em si deve conter dados como via de acesso, tática e técnica, ligaduras, drenagem, sutura, material empregado e aspecto das vísceras, no caso ficaria (com observações minhas para que os leigos entendam):
1- Paciente em DDH (decúbito dorsal horizontal) sob anestesia
2- Antissepsia e assepsia (Sabem a diferença? Assepsia é a limpeza e remoção de contaminação de superfícies e/ou eliminação de microorganismos; Antissepsia é a desinfecção de tecidos vivos com os produtos adequados)
3- Celiotomia xifo-umbilical (tipo de incisão que é uma das adequadas para cirurgias exploradoras como essa por apresentar boa exposição) com diérese por planos (divisão dos tecidos que possibilita o acesso à região a ser operada)
4- Acesso da cavidade abdominal com visualização de aderências de jejuno e cólon com peritônio parietal; fístula enterocutânea; aderências do estômago com borda hepática; fístula pancreático-colônica
5- Feito lise de aderências (ou seja, desfeitas); grampeamento linear com colectomia esquerda (remoção de parte do intestino grosso); reforço do coto proximal e distal com Prolene 3.0 (tipo de fio cirúrgico); pancreatectomia distal com ligadura de Wirsung - oclusão (remoção de parte do pâncreas e ligação do ducto pancreático); rafia com Prolene 3.0 da extremidade do mesmo; enteroanastomose latero-lateral dos cotos colônicos (ligação de um pedaço do intestino grosso no outro, criando uma comunicação entre eles); lavagem exaustiva da cavidade abdominal (para limpar! E o soro aquecido tem boas propriedades na recuperação...); revisão da hemostasia (saber se está sangrando...)
6- Drenagem com dreno tubo-laminar à esquerda
7- Síntese (sutura, ou seja, aproximação ou fechamento) por planos
8- Curativo
Bem, tem operações que o relato é bem maior por ter mais manobras e etapas, mas esse aí dá pra ter uma noção geral de como são os tempos cirúrgicos e de como o cirurgião deve relatá-los em documento que poderá ser útil para análise de possíveis complicações (inclusive judiciais).
Obrigada pela leitura e assim que possível postarei mais comentários de uma simples estudante de Medicina que se aventura no mundo do Internato e, especialmente, da Cirurgia. Abraços!
Atualizações do post:
Primeiramente obrigada a todos que acompanharam o início do blog e inclusive estão cobrando novas publicações! Confesso que tenho material para novos textos e estou organizando isso, mas agora vou compartilhar com vocês algumas informações sobre esse paciente, tanto dúvidas de pessoas que me perguntaram, quanto informações que eu não tinha visto no prontuário e também o estado atual dele no 4º DPO (dia pós-operatório) que foi ontem, dia 06 de janeiro de 2012.
O acidente do rapaz foi de motocicleta em outubro de 2010, sem grandes complicações a priori e com atendimento médico no próprio interior do estado;
Ele evoluiu com algumas queixas dolorosas e em outubro de 2011 submeteu-se a procedimento cirúrgico no interior do estado e, segundo ele, sofreu uma esplenectomia (remoção do baço) e drenagem de líquido da cavidade abdominal;
No 41º DPO deu entrada nesse hospital que tive a oportunidade de conhecer o caso;
Em relação à desnutrição que falei, o estado de emagrecimento dele é notável e a termos numéricos, teve uma perda ponderal de 30 kg em 3 meses;
Ele está com um PO normal e de acordo com o esperado, sem intercorrências ou complicações. Na visita aos pacientes no pré e pós-operatório que é feita antes das cirurgias os médicos e eu vimos isso e depois das cirurgias fui sozinha no leito dele bater um papo e saber como ele está, ele me contou que está bem, com um certo desconforto, mas bastante ansioso pela alta hospitalar.
Abaixo alguns trechos de alguns laudos de exames de imagem como ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas pra vocês verem os termos técnicos e o que em si ele tinha em relação às fístulas pancreática e colônica. As fotografias ficaram ruins, mas dá pra ler... Não consegui fotografar as imagens dos exames de forma que ficasse legal, tentarei "aprimorar essa técnica" para os próximos casos!
Abraços!




